28 de abr de 2011

mandalas-totalidade






A mandala como símbolo da totalidade

Autor: Frederico Eckschmidt (1)

Da forma como entendemos até o momento, a questão do arquétipo e da sincronicidade em relação à psique e a matéria, não causa surpresa se chamarmos o arquétipo, esta potência organizadora da vida, de 'Deus', porém sem "nada exprimirmos sobre sua natureza própria".
Segundo Jung, "'Deus' está inscrito nessa parte de nossa alma preexistente à nossa consciência e que, portanto, Ele não pode ser uma invenção desta última".
Assim, passaremos a estudar suas formas, ou seja, a 'estrutura impressa' que representa o símbolo máximo da totalidade do Si-mesmo. Essa estrutura também representa o processo de Individuação, já que a resolução do problema da união dos opostos passa também pela representação da quaternidade do círculo, ou seja, a forma mandálica com o círculo e o quadrado.
Em sânscrito, a palavra mandala significa 'círculo mágico'. Segundo Jung:
"A verdadeira mandala é sempre uma imagem interior, construída pouco a pouco através da imaginação (ativa) somente em períodos de distúrbio do equilíbrio anímico, ou quando se busca um pensamento difícil de ser encontrado por não figurar na doutrina sagrada".
"Ela é sempre um sistema quaternário, uma 'quadratura circuli' [quadratura do círculo]" e seu centro geralmente contém uma figura de supremo valor religioso, como, por exemplo, o Senhor Shiva abraçado à Shakti (Parvati) ou então Buddha, Avalokiteshvara ou o 'dorje', símbolo de todos os poderes divinos, de natureza criativa ou destrutiva.
Psicologicamente, seu desenho correspondeà forma básica da estrutura da consciência humana, na qual existe sempre um centro (que representa o ego), um traçando do círculo em volta (a área iluminada pela consciência) e quatro direções (as funções de orientação psicológica). Dessa maneira é possível a percepção da passagem do tempo cronológico e do espaço, de onde surge a percepção de localização.
Na Alquimia, este centro também é representado pelo lapis ou o elixir vitae (elixir da longa vida), a tinctura rubea (tintura vermelha) e o aurum philosophicum (ouro filosófico).
No hinduísmo tântrico, as mandalas nas quais aparecem Shiva e Parvati (Shakti) ao centro, representam a união dos eternos opostos _simbolizado pelos triângulos entrelaçados no Sri Yantra (imagem ao lado).
Dessa forma, a mandala é um símbolo perfeito do Si-mesmo, pois adequa-se fielmente ao simbolismo da totalidade.

para Jung:

"A totalidade compreende o ego e o não-ego. O centro do círculo, enquanto expressão de uma totalidade, não coincidiria pois com o eu, mas sim com o Si-mesmo, enquanto síntese da personalidade total. (O centro marcado no círculo é uma alegoria bastante conhecida da natureza de Deus). Na filosofia dos Upanishades, o Si-mesmo é inicialmente o atman pessoal [Jivâtmâ], possuindo ao mesmo tempo uma qualidade cósmico-metafísica enquanto atman suprapessoal [Paramâtmâ]".
Assim, pode-se afirmar que o símbolo da mandala é uma realidade psíquica autônoma, caracterizada por uma fenomenologia que se repete e é idêntica em toda parte. Sua forma circular nos evoca a alma e aos infinitos ciclos, sem começo nem fim e que perduram por toda eternidade. Por isso, no Oriente, toda a filosofia, a teologia, a astronomia, a mitologia e sua música são cíclicas ou em movimento espiralado.
No Ocidente a mesma idéia aparece com os pitagóricos que falavam da esfera de água em rotação.
"Para Archytas, a alma do mundo é um círculo ou uma esfera; para Philolaos ela arrasta consigo o mundo em sua rotação. A origem desta imagem encontra-se provavelmente em Anaxágoras, onde o nous [a alma] provoca um turbilhão no caos. Igualmente importante é a cosmogonia de Empédocles onde, pela união do dissemelhante, surge o ser esférico. A definição deste último como sendo o Deus da Suprema Bem-aventurança".
Como exemplo dos símbolos neutros do Si-mesmo, o mais representativo deles é o 'ponto indivisível', utilizado pelos naassenos e que coincide com a mônada, o Filho do homem (Anthropos) do qual fala Monoimo.
Segundo sua doutrina o símbolo do homem completo é o traço do iota (que é o menor dos sinais da escrita grega e corresponde ao ponto do nosso i).
"Este traço é a mônada una, não composta, que tem sua composição do nada, embora seja composta, multiforme, pluridividida e multíplice. Este 
uno, indiviso, é o traço uno do iota, de muitas faces (polyprósopos), mil olhos e mil nomes. É a imagem do homem completo, invisível... O Filho do homem é o iota único, o traço (keraià) único, que flui, pleno, do alto, enchendo todas as coisas e contendo em si tudo quanto o homem, , o Pai do Filho do homem, possui".

Para Jung, esta concepção paradoxal da mônada em Monoimo descreve a natureza psicológica do Si-mesmo, tal como foi compreendida por um pensador do séc. II sob o influxo da mensagem cristã.

Na tradição hindu, o Si-mesmo mantém o paralelo com a figura do Purusha. Ele também é o ponto indivisível, o bindu (ponto) omkâra, o AUM transcendental (lê-se Om), a primeira vibração manifesta e origem de todas as palavras.

Como é relatado no Chandogya Upanishad, para os hindus, o Universo é apenas uma "criação verbal do processo de denominação" e o Om está na base de toda vibração. Já para os shivaístas (adoradores do deus Shiva):

"O supremo deus é Shiva, o 'possuidor de muitas armas'. Ele é o caçador nas montanhas, o luminoso, o poder oculto da criação. Ele é puramente contemplativo. Sua esposa é Shakti [Parvati], a emanação de poder, o poder da atividade criativa. Isto corresponde com o antigo conceito dos Upanishads de purusha e prakriti" (Jung).

Shiva, neste caso, é compreendido como o purusha, a consciência ou o desfrutador e sua parceira Parvati seria a prakriti, que representa a mente, a matéria e o objeto desfrutado.

Shiva também é conhecido em retratos e imagens como o supremo shiva-bindu, isto é, a forma latente do ponto de poder criativo. Circundando o shiva-bindu, ao redor do centro, repousa a Shakti na forma de um redemoinho (Jung).

Uma concepção paralela a esta é encontrada no Ocidente nas idéias de Plotino (cerca de 205-270 d.C.). Em suas 'Enéadas' ele explica:

"'Sempre que uma alma se conhece, sabe que seu movimento natural não se processa em linha reta, pois sofreu um desvio; mas sabe que descreve um movimento circular em torno de seu principio interior, em torno de um centro. Mas o centro é aquilo de onde procede o círculo. A alma, portanto, movimentar-se-á em torno de seu centro, isto é, em torno do princípio de onde ela procede [grifo meu]. Ela manter-se-á presa a ele; movimentar-se-á em direção a ele, como deveriam fazer todas as almas. Mas só as almas dos deuses se movimentam em direção a ele, e por isso são deuses, pois tudo o que se acha unido a esse centro é, em verdade, Deus, ao passo que o que se acha afastado dele é o homem, o homem sem unidade, o homem animal'.
Nesta concepção, o ponto é o centro de um círculo que e produzido, de algum modo, pela deambulação da alma em torno dele. Mas o ponto é o 'centro de todas as coisas'; é uma imagem de Deus [imago Dei]. É esta a concepção que ainda hoje encontramos na base dos símbolos mandálicos dos sonhos" (Jung).

Assim, se por um lado o círculo nos remete à alma e ao céu, o elemento quaternário, psicologicamente, está diretamente relacionado à terra e ao mundo físico. Como ele representa a série de quaternidades arquetípicas do espaço-tempo, este quatérnio acaba se revelando, como já vimos, um princípio ordenador das impressões sensoriais que a psique recebe de objetos em movimento. O espaço e o tempo constituem um a priori psicológico, um aspecto da quaternidade arquetípica necessária para o conhecimento dos processos físicos.
Segundo comenta Jung:

"O espaço quadrado que no simbolismo oriental significa terra (na China) e Padma (lótus, na Índia) tem o caráter da 'yoni', da feminilidade. O inconsciente do homem também é feminino e personificado pela anima. Esta última representa sempre a 'função inferior' e por isso possui não raro um caráter moral duvidoso; às vezes representa o próprio mal".

A antiga filosofia chinesa localizou o quadrado no "yin" da famosa díade, sendo o elemento ligado ao femininoe à força receptiva. Esta concepção é geralmente representada no Ocidente pela quarta pessoa do drama celeste cristão, conhecida como o diabo _figura também ligada inconscientemente à matéria e ao feminino.Esta ruptura se deve ao fato da divindade ser representada como una, em três pessoas. Os símbolos ímpares são ligados ao masculino e, dessa maneira, o elemento feminino fica silenciado na divindade, tornando-se ctônico e inconsciente. Isso se deve porque no Ocidente a interpretação do Espírito Santo como Sophia-Mater é considerada herética.

Simbolicamente, apesar de se unirem, estes elementos opostos (homem e mulher, Yin e Yang, etc.) representam os opostos irreconciliáveis, pois, quando estão ativados, eles se anulam ou se repelem infinitamente (como na figura ao lado).

Este problema insolúvel da integração desta parte inconsciente (a sombra) foi o tema central de toda Alquimia. Eles encontravam na quadratura do círculo uma tentativa de unir estes "eternos irreconciliáveis" na formação do corpo único, conhecido como lapis.

Jung explica a união do quadrado com o círculo como um

"símbolo do 'opus alchymicum' (trabalho alquímico), na medida em que decompõe a unidade caótica originária nos quatro elementos, recompondo-os novamente numa unidade superior. A unidade é representada pelo círculo e os quatro elementos, pelo quadrado. A produção do uno a partir do quatro é o resultado de um processo de destilação, ou melhor, de sublimação, que se dá numa forma 'circular'; em outras palavras, o destilado foi submetido a diversas destilações a fim de extrair-se a 'alma' ou o 'espírito' em sua forma mais pura. Via de regra, o resultado é designado como 'quintessência', mas este não é o único nome dado ao 'uno' sempre desejado e nunca atingido.

Essa extração da 'alma' que Jung se refere está na "Tabula Smaragdina": "separarás o céu da terra, o sutil do grosseiro com muita habilidade e aí obterás a obra dos filósofos". O sutil que aparece no texto está ligado ao espírito e a alma, que correspondem ao 'ternarius' [ternário].

"O número três deve ser primeiramente separado de seu corpo e, depois de purificado, ser novamente nele infundido". Nessa analogia, pelo visto, o corpo é o quarto e por isso Kunrath refere-se à citação do pseudo-Aristóteles, segundo a qual o círculo ressurge no quadrado, a partir do triângulo (imagem ao lado) (2).

Esse círculo, por sua vez, representa, ao lado do Uróboro _o dragão ou serpente que devora a própria cauda_, a mandala básica da Alquimia.

O movimento se faz sempre num movimento 'circum-ambulatório' da esquerda para a direita (que significa a tomada de consciência), pois o movimento contrário é considerado maléfico. A esquerda ('sinister') significa o lado inconsciente e o movimento para a esquerda equivale portanto a um movimento em direção ao inconsciente, enquanto que o movimento para a direita é 'correto', tendo por meta a consciência.

Como se sabe, o círculo, seu centro e periferia, a cruz e o quatérnio representam esse elemento circum-ambulatório que está na base da possibilidade da consciência e se manifesta sob a orientação do quatérnio espaço-tempo. Segundo Jung:

"A 'circumambulatio' (circum-ambulação) do quadrado, da direita para a esquerda, poderia estar indicando que a quadratura do círculo é uma etapa do caminho para o inconsciente; tratar-se-ia assim de uma passagem, de um instrumento que possibilita alcançar uma meta além, ainda não formulada. É um dos caminhos em direção ao centro do não-ego, que os pesquisadores da Idade Média também percorreram para produzir o lapis".

Assim, a Alquimia gosta de imaginar seu 'opus' como uma circulação, como uma destilação circular ou como o Uróboro. Do mesmo modo que a representação central do 'lapis philosophorum' significa o Si-mesmo, como se pode demonstrar, assim também o 'opus', com seus inúmeros símbolos, ilustra o processo inconsciente de individuação, isto é, a evolução gradativa do inconsciente a uma tomada de consciência. Por este motivo, o 'lapis' aparece como designação da matéria inicial (prima materia) tanto no início como no final do processo.

Segundo Michael Maier, a meta do processo (que é a extração do ouro, símbolo do Si-mesmo) surge do 'opus circulatorium' [a atividade circulatória] do Sol. "Este círculo é a linha reconduzida a si mesma (agarrando assim a própria calda com a cabeça como a serpente) e pela qual se conhece verdadeiramente aquele eterno pintor e criador de formas que é Deus" (apud Jung).

Representação semelhante é encontrada na Índia num comentário do Vâyavîya Tantra, quando se diz que "Brahmâ, o engenheiro deste Universo particular, projetou um grande círculo que pudesse encerrar o Universo" (Vyâsa).

Pelo discutido acima, pode-se perceber que a imagem divina como uma experiência que acontece espontaneamente ao indivíduo. É por isso que

"a imagem de Deus [de início, inconsciente] tem condições de modificar o estado de consciência, do mesmo modo que este pode introduzir suas correções na imagem (consciente) de Deus. É óbvio que isto nada tem a ver com a 'veritas prima' [verdade primeira], o Deus desconhecido, como poderíamos provar de algum modo. Psicologicamente, porém, a idéia da 'agnosia' [inconsciência] de Deus ou do "anennoêtos theos" é da máxima importância, na medida em que ela assimila a identidade da divindade com a numinosidade do inconsciente; deste fato dão testemunho a filosofia do Atman e do Purusha, no Oriente, e Mestre Eckhart no Ocidente (Jung).

Dessa forma, a Psicologia pode constatar a existência destes símbolos, mas sua interpretação, a priori, é totalmente incerta.

"O que se pode dizer com alguma certeza é que os símbolos apresentam um certo caráter de totalidade e por isso, presumivelmente, significam 'totalidade' [grifo meu]. Via de regra, trata-se de símbolos 'de unificação', isto é, de conjunções de opostos de natureza simples (dualidade) ou dupla (quaternidade), ou seja, quatérnios. Eles surgem do entrechoque da consciência com o inconsciente e da confusão causada por este choque, que os alquimistas chamavam de 'Chaos' [caos] ou 'nigredo' [negror]. Empiricamente, tal confusão se expressa sob a forma de inquietação e de desnorteamento. Este simbolismo circular e quaternário aparece então sob a forma de um princípio ordenador compensatório, que apresenta a unificação dos opostos conflitantes como já realizada e prepara um estado de inquietação salutar ('redenção'). De início, a única coisa que a Psicologia consegue constatar é que o símbolo da totalidade expressa a totalidade do indivíduo. Mas, por outro lado, ela deve não só admitir como também ressaltar que o simbolismo da totalidade emprega imagens ou esquemas que exprimem a essência do mundo e a divindade, desde tempos imemoriais, e nas mais diversas religiões.
O círculo é, portanto, um dos conhecidos símbolos de Deus, como também o é a cruz (em certo sentido) e a quaternidade em geral [...].
Todas estas imagens manifestam-se na experiência psicológica como expressões da totalidade unificada do homem. O fato de tal objetivo e 'desiderato' terem recebido o nome de 'Deus' é indício de que possuem caráter numinoso e de que, na realidade, as experiências, os sonhos e as visões desta espécie têm uma natureza fascinante e estranha, apreendida espontaneamente como tal, mesmo por pessoas não influenciadas em seus julgamentos por conhecimentos psicológicos anteriores. Por isso não devemos admirar-nos de que as inteligências ingênuas não façam nenhuma distinção entre Deus e a imagem experimentada. Sempre que aparecem símbolos indicadores de uma totalidade psíquica, depara-se também com a idéia ingênua de que Deus está neles representado. [...] Eles indicam a existência de um arquétipo de natureza correspondente, cujo derivado parece ser a quaternidade das funções de orientação da consciência [grifo meu]. Como, porém, a totalidade ultrapassa os limites da consciência numa medida ao mesmo tempo indeterminada e determinável, ela abrange sempre o inconsciente e, portanto, todo o conjunto de arquétipos. Estes últimos são correspondentes complementares do 'mundo exterior' e, por isso mesmo, possuem caráter 'cósmico'. Daí sua numinosidade e, concomitantemente, seu 'caráter divino' (Jung).

Um comentário:

  1. Gostei muito.Esse assunto me fascina,obrigada,
    Pax!Lux! Amore!
    Eu Sou Virginia Leite

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